sexta-feira, 14 de junho de 2013

DES//ENCONTRO


Lembro bem daquela manhã de terça, amanheceu meio nublado, o sol estava meio preguiço, mas pairava no céu, eu como sempre acordei tarde, bem em cima da hora, tinha uma escolha a fazer, banho ou café da manhã? Preferi o banho, e deixei o café para o almoço, tinha que chegar às 8 horas, e já eram 7: 45, e até o trabalho eu levava por volta de uns 25 minutos para chegar, enfim, eu precisava correr.

Andei, quase correndo, às vezes corria, quase andando, desviando, de um e de outro, driblando postes, a barriga ensaiava uns roncos, lembrando a falta da refeição matinal, mas tinha que chegar, precisa chegar, o chefe odiava atrasos, minha manhã parecia não ter começado bem.

Faltava apenas uma esquina, foi quando a vi, ela estava com os cabelos soltos, não tão longos, era um pouco baixa, não tão baixa, um corpo bonito, não tão perfeito, boca pequena, lábios rosados, não tão vermelhos, vestia uma blusa branca, com detalhes de flores azuis e amarelas, não usava brincos, mas o pescoço era decorado com um colar com um pingente dourado, relógio no punho direito, e carrega uma bolsa no ombro esquerdo, parecia ter por volta de seus 20 anos a 23 anos no máximo, mas matinha a feição de adolescente, um caminhar meigo, calmo, diferente de mim raio endiabrado, cruzando os passos, na pressa capitalista de minhas necessidades. Porém, não conseguir deixar de notar, tão bela moça, não entendi direito minha reação, sei que não existe amor a primeira vista, mas, ela mexeu comigo, de um jeito, de uma rapidez, e não era apenas suas curvas, não era apenas um desejo de carne, aquele instante parecia realmente mágico, eu vi alguém diferente, realmente diferente, embora poderia estar enganado, eu olhei para ela, parei o meu caminho, e os ponteiros que insistiam em me lembrar do atraso já não faziam tanta diferente, eu paralisei.

Então ela percebeu a minha distração, e me olhou de volta com aqueles pequenos olhos, e sua imensidão de cor castanha, e eu meio que despertei, e lembrei que logo naquele dia, tinha saído meio bagunçado nem estava preparado, barba por fazer, roupa batida, suando até, mas logo percebi que aquele olhar desprezava minha casca, aqueles olhos avistavam além da minha imagem, pareciam procurar minha alma, penetrar, despia facilmente meu corpo preocupado, percebia o coração, sorria para a áurea.

Ela me sorriu e saiu, não sei se sorriu da minha cara de bobo, só sei que sorriu, e foi para mim.Eu não sei quanto tempo dura a eternidade, eu não sei quanto tempo dura a felicidade para ela ser real, mas aqueles 30, quase 40 segundos foram tão intensos, tão significativos, que valeriam uma vida inteira, eu precisava saber mais.

Cheguei então, atrasado, mas nem ligava mais, eu queria saber o nome dela, o chefe, cão raivoso, me disse um monte, ameaçou me dispensar, e eu viajando, pesando naquele momento quase irreal, parecia não está ali naquela bronca.

Sentei-me e fui trabalhar, foi então, que o elevador se abriu, e aquela moça que me encantou tanto, entrou na área que eu trabalhava, e se dirigiu a sala do chefe, entrou e ali ficou, eu pensei infinitos motivos para ela estar ali, poderia estar procurando emprego, ou qualquer outra coisa, que no momento não me importava tanto, quanto procurar uma desculpa para falar com ela quando se retirasse da sala, e ela logo saiu porém, abraçado com o chefe, sim, meu chefe tava com ela, trágico, muito trágico, mais que trágico, a danada era a nova namorada daquele velho cão raivoso, o encanto acabou ali, e eu nunca mais cheguei atrasado.


terça-feira, 14 de maio de 2013

O VALOR DOS SONHOS





O mar estava furioso, ondas tão grandes que pareciam bocas enormes ao devorar os pequenos barcos na imensidão azul. Da janela do apartamento caro, ele apenas observava a fúria do mar, misturado com pensamento distante, fumava um cigarro atrás do outro, andava de um ladro pro outro, brincava de mudar de canal, enchia um copo de uísque, bocejava um sono que nunca vinha cedo, voltava para janela e se distraia com o mar.

Chegava aos 40 e já tinha conquistado tudo, o emprego dos sonhos, o salário mais que alto, uma vida de luxo, riquezas, estava no auge no ramo empresarial, tinha quase tudo que queria, e era nesse quase que morava suas angustias e insatisfações. O tempo que o seu relógio de ouro marcava parecia não ter mais sentido, faltava algo, algo tão pequeno, um detalhe que mudasse sua rotina, algo que diferenciasse seu dia, que o motivasse nos dias mais cinza.

Foi então, que num belo dia como qualquer outro, indo pro seu trabalho no seu carro importado, que ele avistou da janela um garoto engraxando sapatos, nada fora do comum num país desigual milhares de crianças trabalham, mas aquele garoto chamou a atenção dele, não era apenas mais um garoto engraxando sapatos, era um garoto aparentemente feliz engraxando sapatos, ganhando tão pouco que mal dava para comprar comida, enquanto ele naquele carro, no ar condicionado, vestindo roupas caras, calçando sapatos caros, não conseguia sorrir da mesma forma, não com a mesma simplicidade e leveza do sorriso do garoto, e aquilo o intrigou por dentro, ele precisava descobrir o que fazia o garoto sorrir, ele precisava entender como se poderia ser feliz tendo quase nada, sofrendo com um trabalho tão desprezado e desvalorizado que não cabia felicidade em fazer aquilo. Porém, não parou seguiu seu caminho, com aquela imagem na cabeça, indo e vindo, não trabalhou direito naquele dia, voltou para sua casa pensativo, viajando em perguntas que possivelmente só aquele menino poderia respondê-lo.

Passada uma semana, ele não tinha esquecido o engraxate sorridente, ia sempre pela aquela mesma esquina de quando o avistou pela primeira vez, na esperança de revê-lo de novo, porém sem sorte nunca mais tinha o achado por ali.

 Foi apenas depois de um mês que o reencontrou, embora tenha passado tantos dias, ele ainda indagava questões sobre a felicidade do menino, resolveu parar de imediato, com a desculpa de engraxar os sapatos, e logo puxar conversa, descobrindo assim o motivo da felicidade do garoto. Sentou-se no banco, e chamou o menino para que ele engraxasse seus sapatos, aparentemente limpos, mas, o menino não recusou o trabalho tirou a pasta e escova do caixote que carrega e começou a dar mais brilho nos sapatos do homem rico.  Perguntou o nome do garoto, para quebrar o gelo, o garoto sorrindo disse : - Meu nome é Rui !, O homem, não satisfeito perguntou a idade do garoto, e o garoto respondeu : - Tenho 11 anos, senhor ! O homem ainda inquieto, fez-lhe outra pergunta: - Não era para você está na escola, garoto? O garoto respondeu: - Pois é, mas preciso trabalhar, minha mãe está doente, e meu pai nem sei quem é, somos só nos dois nesse mundo, ela está precisando de mim nesse momento, esse dinheiro que ganho  serve para comprar algo para nós comer no fim do dia. O homem rico, engoliu seco a resposta, e ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto o garoto trabalhava calmamente e ainda sorrindo. O homem então lançou mais uma pergunta: Incrível, você está de parabéns, tão novo e já é o homem da casa, porém o que mais me admira é que você sempre está sorrindo, mesmo tendo tantas dificuldades, parece está feliz, você é feliz , qual é o segredo para sentir-se tão bem assim ? O menino olhou para o homem, parou o serviço, respirou fundo e disse rindo: Ah senhor, nem te responder, não entendo muito dessas coisas, esse é meu jeito, acredito que tenho muito a agradecer, mesmo tão pouco, ganho sempre boas gorjetas, minha felicidade está nisso, em poder sair de casa e voltar tendo algo para minha mãe, e todo dia junto um pouquinho, sabe, estou namorando a tempos uma bicicleta maneira que vi numa loja ali, acho que mais uns três meses e consigo ela, e olha que já estive mais longe, fico feliz todo dia, pois sei que cada dia que passa fica mais perto de conseguir-lá, talvez seja o motivo, mas eu não entendo muito disso não, apenas sou assim, é melhor rir né, chorar não adianta. O homem, ficou mais uma vez sem palavras, a simplicidade e inteligência do garoto fez com que ele repensasse muito ali, naquele instante que engraxava seus sapatos, muitos valores e significados foram de certa forma reavaliados. Não precisou de mais respostas, o menino enfim terminou o serviço e disse : Pronto senhor, terminei ! Custa 5 reais o serviço. O homem deu uma nota de vinte e saiu, o garoto agradeceu muito, com um largo sorriso daqueles de criança que só de ver deixa qualquer um feliz, o homem naquela manhã ficou feliz, como nunca mais esteve.

Chegou do trabalho, deitou-se e continuou a pensar naquele garoto de pequenos sonhos e grandes responsabilidades, notou que precisa ter mais sonhos, daqueles pequenos, simples, coisas que sonhava quando era garoto, andar de balão, amanhecer na beira da praia, jogar bola no campinho da rua, coisas que nunca fez, que sempre teve vontade de fazer, coisas que seu dinheiro podia pagar só que esquecerá de como é era bom se divertir, que a vida não era só trabalhos, negócios e lucros. Pegou então um bloco de notas e começou a listar coisas que queria fazer, coisas simples, coisas complexas, apenas coisas que fariam sorrir. 

A primeira coisa da lista era comprar a bicicleta para aquele garoto que o fez acordar para vida, então foi lá, comprou a bicicleta procurou o garoto a entregou, recebeu tantos sorrisos de agradecimento que sua alma parecia renovada, limpa e tranquila, foi então na empresa e tirou férias, coisas que não tinha a muito tempo, as viagens era sempre a negócios. Foi para casa pegou a mulher os filhos e fez uma viagem, andou de balão, jogou bola com as crianças no campinho, namorou ao luar da praia com a esposa, jogou vídeo game com os filhos, fez um jantar especial para todos, foram ao cinema todos juntos, tantas outras coisas que as famílias fazem, tudo tão acessível e que estava despercebido , adormecido, coisas que traziam uma tinta diferente para vida dele que há muito tempo ele tinha esquecido de fazer.


Nunca esteve tão feliz, voltando das longas férias, ao chegar em seu apartamento, falou que faria aquelas coisas mais vezes, e que tiraria férias todo ano. Então a noite deitou com a esposa na cama e adormeceu tão feliz e calmo, liberto das aflições que teu peito por tantas noites clamava, descobriu que ás vezes o que mais queremos está tão perto, é tão simples de conseguir,  e temos tanta dificuldade de perceber, que sonhos não tem valor, não se compram, realizar-los é a unica coisa que pode torna-lós reais. 

Porém, no outro dia sua esposa ao tentar acorda-lo tomou um grande susto, o marido estava frio, pálido, sem pulso, gritou, chamou ambulância, já era tarde, ele tinha falecido, ali deitado com um sorriso feliz no rosto, o fato é, ele tinha um tumor no pulmão, silencioso apenas esperando a hora de levar-lo, por sorte, antes de partir, conseguir ser feliz, conseguiu se libertar.




sexta-feira, 10 de maio de 2013

PEDAÇOS DE ETERNIDADE







Chovia muito aquela noite, tanto que os pingos pareciam lágrimas de um céu completamente triste, escandalosamente desesperado, vivendo um pranto sem fim. Ele não sabia se era a melhor hora para sair e ir na casa dela, falar tudo aquilo que tinha para falar, resolver o caso complicado, por um fim em algo que parecia eterno, porém não poderia esperar mais nenhum dia, tinha que ser aquela noite, sem “por que” ou “pra que”. Resolveu sair assim mesmo, pegou o casaco que ela mais gostava, penteou o cabelo, passou um perfume de leve, procurou as chaves do carro e partiu. 

A casa dela não era muito longe, 10 minutos em uma velocidade média, minutos que passavam rápidos em dias normais, mas, naquele dia durou tanto, como se ele não quisesse chegar, como se algo mais forte o fizesse ir tão devagar, que parecia mais voltar do que ir, certamente pensar em toda aquela história, em todos os momentos felizes que viveu ao lado daquela moça, eram armas contra a sua decisão de terminar o namoro.

Naquela noite ele não ligou para avisar que iria a casa dela, certamente para não gerar perguntas ou deixa-la ansiosamente feliz, como sempre ela ficava com as visitas dele. Queria chegar lá e falar o que sentia e depois ir embora, finalizar esse capítulo que parecia  perfeito em sua vida, porém, por parte dele já não era a mesma coisa de antes, parece que a rotina cansou o amor, coisas que não se explicavam com matemática invadiam a cabeça dele, indicando que era melhor um fim, tudo fazia aquele querer todo do inicio se tornar algo sem gosto, sempre faltava algo, mesmo tendo aquele maravilhoso sorriso dela todos os dias, recebendo tantas declarações, carinho e amor que já mais tinha recebido de outra, mesmo assim, ainda precisava de algo novo, respirar novos horizontes, conhecer novas pessoas, queria achar a sua felicidade crua.

Chegou então na casa dela, bateu na porta e ouviu o cachorro  latir, e o cão ao sentir seu cheiro aquietou-se, pois ele já era familiar. A mãe dela abriu a porta, e sorriu, um sorriso tão grande que não cabia no rosto, ele era bastante querido por ser um rapaz trabalhador, educado, e sempre atencioso com todos da família dela. Entrou sentou-se no sofá, e esperou ela que estava tomando banho. Feliz  ao ouvir a voz dele a procura-la, ela apressou os processos e saiu de toalha, dando lhe um beijo, e correndo na direção do quarto para se vestir. Cada elemento daquela relação perfeita parecia tender a sua desistência, pensava consigo mesmo, que não deveria seguir o que estava disposto a fazer, então aquela contradição entre o coração que desejava uma paixão maior, e a razão acomodada com a perfeição daquela relação, explodiu silenciosamente naquela sala.

Ela não demorou em sair do quarto, vestindo um short cinza e uma camiseta preta, com a tolha enxugando os longos cabelos pretos, e sorrindo como sempre, perguntando o motivo da presença dele ali, e o “por que” de não ter ligado avisando que vinha, ele meio sem jeito, com sorrisos de canto de boca, disse que tinha algo muito importante para falar, abaixou a cabeça e desviou o olhar para os móveis, para TV, para o teto, para tudo menos para ela. Então sentou ao lado dele, abraçando carinhosamente na altura dos ombros, e pediu para que ele falasse. Ele buscou ar, com a dificuldade de um fumante de 80 anos, olhou naqueles olhos verdes que mais pareciam esmeraldas, e disse: -  Bom antes de te dizer qualquer coisa quero deixar claro que você é a pessoa mais importante da minha vida, é muito bom estar com você, e todo esse tempo que vivemos juntos, foi realmente incrível, não tenho nada a reclamar de você, é tão linda, tão carinhosa, inteligente, sempre estando ao meu lado, nos bons e nos maus momentos, sempre esteve aqui, bem eu não sei ao certo como te falar isso, não preparei nada, apenas vim com o coração aberto, não sei se é a coisa certa, mas o que é certo afinal? Não sei, estou muito confuso, você é tão perfeita. Ela interrompeu com ares de preocupação, meio sem entender, meio querendo chorar, e disse: - Não estou te entendendo, aconteceu alguma coisa querido? Me diz logo, isso ta começando a ficar estranho, você não ta normal. Falou soltando o corpo dele, e pondo as mãos no colo, Ele fugindo o olhar novamente, segurou na mão dela e disse: - Bem eu vim aqui para dizer que não dá mais, não te quero mais, não consigo sentir o que sentia lá no começo, é isso, espero que perdoo-me, eu ainda gosto de você, mas, não me sinto feliz o suficiente para continuar, preciso te deixar. Ela sem acreditar perdeu as palavras na medida que seus olhos se encheram de lágrimas, repetindo várias vezes que tudo só poderia ser mentira, demorou em acreditar naquilo que tinha acabado de ouvir, e disse: - Não pode ser verdade, mas como? Ontem estava tudo bem. E o choro aumentava gradativamente,  derramando lágrimas como a chuva lá fora, como uma cachoeira irritada vomitando água do céu para terra. Ele sentiu-se a pior pessoa do mundo, mas não tinha volta,  tentou explicar novamente com as palavras mais doces que existia, mas no fundo sabia que nenhuma palavra era racional o bastante para aquela decisão tão sem lógica fosse aceita por ela na paz. Ela sem saber o que dizer, sem querer dizer, apenas chorando, correu e se trancou no quarto,  e gritando pausadamente com o soluçar do choro mandou-o ir embora e que nunca mais voltasse, ele levantou-se e caminhou vagarosamente olhando para frente, com o coração tão apertado que parecia está sendo esmagado por uma gigantesca pedra, pensando que tinha feita a coisa errada, meio arrependido, saiu em alta velocidade sem destino.

Seis meses  tinham se  passado, nem ele sabia dela, nem ela sabia dele, ele andava mal, sentia-se só, e cada dia que passava tinha mais certeza que tinha tomado a decisão errada. Tinha tido alguns encontros com outras, ido as festas mais sacanas e vulgares que nunca tinha ido, e aquela casualidade não enchia sua alma, apenas saciava seus prazeres da carne. Inicialmente senti-se melhor, mas depois de algum tempo começou a sentir uma saudade tão grande dela, crescendo como mato selvagem, sem lado, sem tamanho, numa desordem total. Durante esse tempo ele tentou ligar algumas vezes, mas sempre deu caixa postal. 

Um ano, e ele já não aguentava mais de saudade, resolveu ir lá, conversar, tentar alguma coisa. Vestiu-se bem, mas nenhuma bela roupa escondia o seu nervosismo, ansioso, mil coisas passava na sua cabeça, ele sabia que ela poderia estar com outro, ele sabia que ela poderia não querer mais falar com ele, eram tantas hipóteses negativas, mas, nada mudava a vontade de ver-lá, pois, ele tinha a certeza que ainda amava.

Partiu então, chegando lá, bateu cautelosamente a porta, tão fraco que nem o cachorro veio o receber, insistiu até que o pai dela o recebeu, surpreso com a presença dele, tomou um susto, mas gentilmente estendeu a mão e perguntou se ele queria entrar. Entrou e sentou-se ao sofá enquanto o pai chamava a filha que estava no quarto. Demorou alguns minutos, e aquela espera foi mortal, pensou que talvez ela não o quisesse receber. Foi ai que saiu um jovem, forte do quarto dela, e logo após ela saiu, sorridente como sempre, e parecia está mais linda do que a ultima vez que ele a tinha visto, ele não sabia como reagir ao ver o rapaz estranho, logo pensou que ela estava com outro, e perdeu a esperança de reconquista-lá. Ela não sabia o que dizer, apenas que estava bastante surpresa em rever-lo, ele meio sem graça disse :  - Sei que passou um bom tempo, mas, desde então não parei de pensar em você, sei que errei, fiz tudo errado, hoje estou completamente arrependido, não tenho o direito de te ter de volta, mas queria te ver, saber como está?. Ela ainda sorrindo disse : Estou ótima ! Uma resposta curta, deixando-o mais tenso ainda. Ele então disse: - Enfim,  só queria que soubesse que fiz a cosia errada, não deveria ter deixado você naquela noite chuvosa, deveria ter voltado no mesmo instante perdi perdão e continuar tão bem como estava, mas sabe como é, sempre queremos mais, nunca estamos satisfeitos com nada, e hoje sinto o peso da minha escolha, troquei a mulher mais perfeita do mundo por uma vida de curtição e casualidades, realmente fui um idiota. Ela então ainda sorrindo: - Relaxe ! Não se estendeu. Ele percebeu a falta de interesse dela com presença dele e começou a se despedir :  - Foi bom rever-lá, espero que esteja feliz, esse rapaz é seu namorado? Ela mantendo o sorriso, não respondeu, deixando o apreensivo, ele então disse adeus e  saiu em passos curtos em direção ao portão, com os olhos vermelhos, segurando o choro, bastante abatido. Não sabia ele, o que o esperava. Partiu em alta velocidade novamente sem direção, virando o carro numa curva perigosa da estrada, um acidente feio, o carro capotou várias vezes até parar, todo destroçado estava seu carro, estava sua vida, seu coração, apagou. 

Acordou no hospital, por um milagre ainda estava vivo, abriu os olhos, e tudo estava embaçado, teu corpo doía tanto, que nem altas doses de morfina era capaz de reduzir seu sofrimento. Quando recuperou sua percepção notou que tinha sido amputadas suas duas pernas, foi um balde de água fria, o seu mundo então se desmoronou, chorou tão longamente, desesperadamente, sem acreditar, teve que ser sedado para que se agravasse mais suas lesões corporais.

Alguns dias depois, não conformado, porém menos agitado, ainda estava no hospital quando recebeu a visita dela, sorrindo como sempre , porém um sorriso de pena, com os olhos cheios de lágrimas, ela chegou perto do leito, e beijou sua cabeça, ele sem acreditar sorriu, esqueceu até da dor, ela então disse: - Estive aqui todos os dias desde que o acidente aconteceu, todas as vezes você estava dormindo,  rezei bastante para que ficasse vivo, não queria que você morresse sem saber a verdade. Ele feliz, perguntou, que verdade era essa? Ela então retomou o discurso: - Eu também sentia sua falta, eu também queria que você voltasse, e naquele dia que você chegou lá em casa, não pude acreditar que tinha voltado para mim, que tinha se arrependido, não tive palavras, não sabia se deveria te aceitar de volta, mesmo te amando. Ele sem entender, continuou ouvindo atentamente ela falar: - Você não sabe o quanto me sentir culpada em saber que sofreu esse acidente logo após sair lá de casa, notei seu desespero  mas queria que você sofresse um pouco mais, iria te ligar a noite dizendo que aceitava suas desculpas e que tentaria de novo reatar nosso relacionamento e aquele rapaz que você tinha visto era um primo que veio me visitar, não era nada meu, pois nunca te esqueci, nunca quis nada sério com ninguém, esperei você voltar mês após mês, pois sabia que você me amava, só estava confuso. Ele, ainda sem acreditar começou a chorar, um choro feliz e preocupado, perguntou: - E agora? você ainda vai me amar? não posso mais andar, vou depender de ajuda das pessoas, não sou mais o mesmo, vou ser um carma em sua vida. Ela tapou sua boca com a mão e disse: - O amor, não seria amor se só te amasse pelo seu corpo, o amor se faz real quando encontramos essas situações complicadas, enfrentarei tudo com você, mas do que nunca, estarei com você, disse ela segurando a mão dele, Ele então misturou o choro feliz com um sorriso mais feliz ainda e fez diversas declarações de amor a ela, e prometeu nunca mais sair do lado dela, e jurou  que faria o máximo para que ela fosse feliz, ela o deixou com o sorriso e com promessa de voltar amanhã, virou-se e caminhou em direção a porta em pranto, chorando, ela sabia que poderia perder-lo, mas precisava passar forças para ele, o acidente foi grave eram poucas as chances de plena recuperação, ele beirava a morte, porém agora aliviado, recupera-se o amor de sua vida.

Alguns dias depois ele não resistiu aos ferimentos e ao tratamento e faleceu. Não há como entender a vida, não há como preparar um diagnostico de cada escolha, e é assim que caminha o ciclo humano, as vezes escapamos ilesos, temos uma segunda, uma terceira chance, porém certas vezes somos vitimas fatais de nossas inquietações e indecisões. Por isso é importante mas do que nunca aproveitar, cada instante de tédio que a felicidade tem.




sábado, 16 de fevereiro de 2013

O PRISIONEIRO


Ele estava preso e não sabia, aprisionado em si mesmo. Seguia sua simples rotina, acordava sempre com o canto do galo (nem um minuto a mais, nem um minuto a menos), tomava aquela caneca de café amargo e morno, que sempre sobrava da noite passada, lavava o rosto, escovava os poucos dentes que te sobrou na boca, ligava o rádio e sentava na sua velha cadeira de balanço. O som daquele velho rádio era a única coisa que se ouvia naquela casa fria de paredes tão brancas que pareciam de um hospital, uma casa grande com poucos móveis, vivia de janelas fechadas deixando sempre um clima meio sombrio, um lugar pouco convidativo.

Saia pouco, geralmente para ir ao banco buscar sua miséria de aposentadoria, ou para comprar cigarros e bebidas no boteco da esquina, tinha uma diarista para realizar as poucas tarefas do lar, na maioria das vezes a usava em outros serviços mais pessoais, porém com sua idade elevada, beirando os 70, eram cada vez menos frequentes seus atos de luxuria com aquela pobre e desesperada mulher.

 Na hora do almoço era tudo um, um prato, um copo, uma colher, um garfo e uma faca, sentava-se só a mesa, no mais puro e inquietante silêncio, interrompido apenas pela sua torce seca, normal de um fumante, seus pulmões já estavam falhando. Depois do almoço pegava um cigarro e começava a fumar, tão quieto e pensante, estava preso e não sabia.

Tinha cabelos brancos, um rosto cheio de ruga, um olhar morto. Lembro-me, daquele velho homem que estava tão só, esperando sua única companheira chegar, a morte, que considerava sua fuga, sua liberdade, já não tinha boas expectativas, sonhos, não tinha nada, não tinha ninguém, família espalhada pelo mundo, filhos crescidos e morando bem longe, e sua esposa já tinha falecido, vitima de uma doença rara.

Nunca foi ter tantos amigos, pelo menos amigos de verdade, ficou velho, fraco, doente e esquecido, aprisionado em sua casa. Assistia televisão para matar o tempo, antes que o tempo o matasse, chorava poucas lágrimas antes de dormir, talvez de saudade, talvez de dor, e quem sabe de arrependimento, pois nunca imaginou terminar assim, tão sem ninguém, preso sem em si mesmo, nas piores das celas, mofando junto à solidão. Ás vezes ligava para os filhos, mas nunca recebia a visita deles, talvez por ser um pai rigoroso que bebia e fumava muito, um homem rude, que os reprendiam, que traia a mulher, que assustava com suas atitudes exageradas.

Essa solidão toda era como uma punição para ele, o tempo foi cruel, ele sabia dos erros que tinha cometido, mas como voltar atrás?Como refazer? Retratar? Pedir desculpas, ou até mesmo não cometer tudo que tinha feito, não há uma resposta, nossas atitudes são como um copo de vidro jogado ao chão, não tem mais conserto, não tem como voltar atrás e impedir dele se quebrar, não existe maquina que volte o tempo, cada minuto que passou, leva consigo nossas escolhas, e cada minuto que virá é o resultado delas.

Morreu assim velho, aos 73 anos, um câncer no pulmão finalmente o libertou daquela dor infinita, que a solidão causou, da agonia, do silêncio, de si mesmo.





domingo, 3 de fevereiro de 2013

A SANTINHA




Ela sempre passava na mesma hora, praticamente usando o mesmo tipo de roupa: Uma saia longa de cor morta, bem desgastada, que não mostrava nada, apenas os pés finos e dedos pequenos. Vestia sempre uma camiseta longa que só acabava nos punhos, com grandes botões pretos, tão grandes que escondiam seus seios. Parece que ela se protegia dos pés a cabeça, evitando olhares de desejo dos homens de plantão. Não era bonita, mas também não era de se jogar fora, deixava o cabelo solto, longo e embaraçado. Tinha grandes lábios, e uma pele morena e lisa, mal arrumada, não despertava tanto o interesse daqueles que havia, sempre passava despercebida, acho que pra ela assim era melhor. Seu único amor era os cultos, de segunda a segunda, andando com aquela velha bíblia pesada de capa cinza, nem sei pra que tanta oração, pois, ninguém imaginava que ela fosse capaz de pecar.

 Os moleques da rua a chamavam de "tia encalhada", pois, chegava aos 30 sem nunca ter namorado sério. Trabalhava de caixa em um supermercado no centro, ganhava pouco, mas, nunca atrasava o dízimo, para ela era sagrado o compromisso com o pastor. Morava apenas com sua mãe, seu pai já era falecido. Filha única, e bastante tímida, talvez a superproteção da mãe tenha impedido dela arrumar um namorado, e casar, ou talvez ela fosse tão tímida e desengonçada que nunca tenha conseguido despertar o deslumbre de alguém. Ela também não desejava abandonar a mãe, tinha um apego enorme  com a velha chata, que também assustava qualquer pretendente que por ventura se aproximasse.

Mas, essa rotina da santinha, nunca me convenceu, sempre chamou minha atenção, “culto de segunda a segunda?” achei estranha tanta devoção, no porão maquiavélica da minha mente, não descia essa história fria. Conversando com um e com outro descobrir que as terças a igreja que ela frequentava não funcionava, era a folga do pastor que também era cantor, vendia seus discos no fundo de um carro sempre no fim dos encontros religiosos, com os lucros reservados a "fins sociais"  (como a casa na praia que ele acabará de comprar).

Passava semana, passava mês, e minha curiosidade só aumentava como dívida de pobre. Para onde ela ia afinal? Será mesmo uma santinha? Eram tantas perguntas que não cabiam em um questionário de fofoqueira. Nunca fui de falar com ela, ficávamos apenas no, “boa noite e no bom dia”! Então, por um impulso corrupto resolvi persegui-la e acabar de vez com minhas dúvidas. Fui de mansinho rastreando os teus passos, ela andava rápido, e nunca olhava para trás, entrou na rua da igreja, passou pela porta e seguiu. Parecia que seu destino não tinha fim, entrando e saindo de ruas, sem cansar e sem parar ela seguia. Daí então ela parou, e entrou nunca casa de janelas grandes, num bairro classe média baixa. Olhei de longe sem saber o que realmente funcionava ali, não dava para perceber, tinha que correr o risco de ser pego e chegar mais perto, ou então continuar com as inquietações da minha curiosidade. Tomei coragem, atravessei a rua e parei na porta, a casa estava meio escura, procurei alguém por perto para saber quem morava ali. Porém ninguém sabia, acabei até sendo assaltado nessa tentativa de procurar informação, levaram meu relógio, que era herança do meu avó, e meu celular que ainda estava pagando. Pensei em entrar e acabar de vez com todo o suspense, já era um pouco tarde, sabia que ela já estava pra sair, sem pensar direito entrei sem bater, e meus olhos não acreditaram no que eu vi, meu queixo caiu, e caído ficou, era tão estranho ver aquilo, nunca iria imaginar o que ela realmente estava fazendo. Gritava alto, se tremia toda, até suada estava, revirava os olhos tão rapidamente, e gemia alternando tons. Foi inesquecível, matei minha curiosidade, descobrir que a danada da santinha, realmente era uma santa, pois, o que ela fazia naquela casa, era rezar com um grupo de irmãos, canalizando ainda mais a força de sua fé, contra os poderes do demônio. Não pensei duas vezes e me juntei com o grupo, gritei duas aleluias, chamei o povo de irmão, e assim conseguir disfarçar toda essa confusão.

domingo, 23 de setembro de 2012

O ENIGMA DO PALHAÇO




Eu sempre ficava imaginando a pessoa que existia atrás daquela maquiagem pesada, daquele nariz vermelho, e peruca engraçada. Talvez essa minha curiosidade matasse a piada, desabitasse a arte daquela alma. Diferente das outras crianças, o palhaço não me fazia medo, nem mim fazia rir, ele me fazia pensar.

Era perturbador tentar adivinhar o que realmente ele sentia, já que sua arte era fazer as pessoas rirem não se tinha outra imagem, se não a de uma pessoa feliz por trás daquele artista. Porém pra mim seria muito pobre imaginar, que ele era feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Como o circo ficava apenas 1 mês na cidade a cada ano, era difícil pesquisar com os olhos o que o palhaço sentia naqueles espetáculos. Só  tinha uma coisa a ser feita, perguntar!. Apesar das lendas que cercavam o povo circense, de que eles eram pessoas estranhas, ciganos, que raptavam crianças, não tive medo, mesmo pequeno e indefeso, precisava desvendar o enigma que criei. Então esperei até o fim do espetáculo para sacudir minhas perguntas sobre aquele misterioso personagem.

Sem plano traçado, apenas esperei até as luzes daquela gigantesca lona se apagarem, e as pessoas presentes irem embora. E assim ao fim do espetáculo, os artistas voltavam pro seu acampamento, alimentava e guardava os animais, e toda aquela alegria que  habitava o decorrer do show, dava espaço para um silêncio tão triste, e frio, e agora eles deixavam de ser extraordinárias para serem simples trabalhadores cansados e famintos.

Não sabia por onde começar, eram tantas cabanas, e uma unica  seria a  do palhaço. Seria suspeito sair perguntando, pois uma criança não deveria estar ali, naquela hora, pensariam que estaria perdido, e assim estragariam minha ambição de resolver tal enigma. Tomei todo cuidado do mundo, andei como se estivesse pisando em ovos, qualquer passe em falso, qualquer comportamento incomum. acabaria com a chance de desvendar-lo.

Então andei, enquanto alguns artistas ainda trabalhavam, toda ilusão do espetáculo iria se desmanchando com meus passos. Passar por aquele mágico sem sua cartola, tornando ele um homem comum, como todos homens que acreditava no impossível. Os trapezistas sem estarem pendurados lá no alto do picadeiro, aqui no chão, se tornavam normais também, como todos os homens, que não possuem asas para voarem sozinhos. E assim todos os artistas que eu via sem estarem atuando acabavam se tornando pessoas normais, trabalhadores como todos os outros, e tudo pra mim começava a fazer sentido, um sentindo cinza, com cheiro de  realidade.

Depois de alguns desencontros, a sorte finalmente me sorriu. Encontrei o refujo do palhaço, e lá estava ele ainda com aquelas roupas coloridas, retirando do rosto o seu personagem. No primeiro momento ele se assustou, uma criança ali, não era comum. Perguntou o que eu fazia? O que eu queria? se eu tinha me perdido?. Eu logo respondi, atravessando suas possíveis outras perguntas. Disse que estava ali pra desvendar um enigma, queria saber o que o palhaço sentia, se ele só sorria. Para um adulto eram perguntas tolas, mas para uma criança curiosa, era um descobrimento, que se igualava a qualquer outro.

Ele sorriu, um sorriso cansado, mas sorriu. Para ele minha louca expedição até ali, mesmo sem significado lógico, tinha um pouco de razão. Cabia lógica na minha explicação, quando eu contei, que sempre ficava imaginando a pessoa atrás do palhaço, pois, pra mim ele era a pessoa mais feliz do mundo, trabalhava cativando sorrisos das pessoas, fabricava alegria, e como ás vezes eu me sentia triste, queria saber como era ser sempre feliz. Terminada a minha explicação, ele levantou, pegou uma toalha e passou no rosto, e ali se iniciou um silêncio perturbador, dava para escutar os grilos, até o falhar elétrico da lâmpada, mas nada me detraia, atento esperei respostas enquanto ele se limpava.

Olhou pra mim, já sem aquela maquiagem, sem sua peruca e nariz vermelho. Olhou pra mim com a cara nua, já se tornando um homem comum, me admirei em ver aquele rosto cansado, cheio de rugas, e sinais de preocupações, aqueles olhos tristes transbordando solidão. Sim, eu já não tinha mais tanta certeza das minhas conclusões, já não o achava o homem mais feliz do mundo. Aquela expressão cansada, me falava muito, o suficiente para quase desvendar o enigma do palhaço.

Hoje em dia, nem me lembro o que ele falou pra mim, pois o teu discurso não foi tão importante, as palavras ficam menores, quando os olhos comprovam primeiro o que a gente quer saber. Apenas guardei aquela imagem triste, de um homem comum, que também sentia-se triste como qualquer outro homem, que também chorava e sofria, que também envelhecia e morria. E para uma criança descobrir isso era como crescer e ir derrubando os sonhos pelo caminho, derrubar de um tombo só muitos sonhos, um baque tão grande, destruindo qualquer sublime fantasia sobre o irreal. Afinal, agora velho eu sei, não existe uma formula para a felicidade, ela é muito complexa para caber em uma receita, só me falta descobrir como ela é tão pequena pra caber em um sorriso.