sábado, 16 de fevereiro de 2013

O PRISIONEIRO


Ele estava preso e não sabia, aprisionado em si mesmo. Seguia sua simples rotina, acordava sempre com o canto do galo (nem um minuto a mais, nem um minuto a menos), tomava aquela caneca de café amargo e morno, que sempre sobrava da noite passada, lavava o rosto, escovava os poucos dentes que te sobrou na boca, ligava o rádio e sentava na sua velha cadeira de balanço. O som daquele velho rádio era a única coisa que se ouvia naquela casa fria de paredes tão brancas que pareciam de um hospital, uma casa grande com poucos móveis, vivia de janelas fechadas deixando sempre um clima meio sombrio, um lugar pouco convidativo.

Saia pouco, geralmente para ir ao banco buscar sua miséria de aposentadoria, ou para comprar cigarros e bebidas no boteco da esquina, tinha uma diarista para realizar as poucas tarefas do lar, na maioria das vezes a usava em outros serviços mais pessoais, porém com sua idade elevada, beirando os 70, eram cada vez menos frequentes seus atos de luxuria com aquela pobre e desesperada mulher.

 Na hora do almoço era tudo um, um prato, um copo, uma colher, um garfo e uma faca, sentava-se só a mesa, no mais puro e inquietante silêncio, interrompido apenas pela sua torce seca, normal de um fumante, seus pulmões já estavam falhando. Depois do almoço pegava um cigarro e começava a fumar, tão quieto e pensante, estava preso e não sabia.

Tinha cabelos brancos, um rosto cheio de ruga, um olhar morto. Lembro-me, daquele velho homem que estava tão só, esperando sua única companheira chegar, a morte, que considerava sua fuga, sua liberdade, já não tinha boas expectativas, sonhos, não tinha nada, não tinha ninguém, família espalhada pelo mundo, filhos crescidos e morando bem longe, e sua esposa já tinha falecido, vitima de uma doença rara.

Nunca foi ter tantos amigos, pelo menos amigos de verdade, ficou velho, fraco, doente e esquecido, aprisionado em sua casa. Assistia televisão para matar o tempo, antes que o tempo o matasse, chorava poucas lágrimas antes de dormir, talvez de saudade, talvez de dor, e quem sabe de arrependimento, pois nunca imaginou terminar assim, tão sem ninguém, preso sem em si mesmo, nas piores das celas, mofando junto à solidão. Ás vezes ligava para os filhos, mas nunca recebia a visita deles, talvez por ser um pai rigoroso que bebia e fumava muito, um homem rude, que os reprendiam, que traia a mulher, que assustava com suas atitudes exageradas.

Essa solidão toda era como uma punição para ele, o tempo foi cruel, ele sabia dos erros que tinha cometido, mas como voltar atrás?Como refazer? Retratar? Pedir desculpas, ou até mesmo não cometer tudo que tinha feito, não há uma resposta, nossas atitudes são como um copo de vidro jogado ao chão, não tem mais conserto, não tem como voltar atrás e impedir dele se quebrar, não existe maquina que volte o tempo, cada minuto que passou, leva consigo nossas escolhas, e cada minuto que virá é o resultado delas.

Morreu assim velho, aos 73 anos, um câncer no pulmão finalmente o libertou daquela dor infinita, que a solidão causou, da agonia, do silêncio, de si mesmo.





domingo, 3 de fevereiro de 2013

A SANTINHA




Ela sempre passava na mesma hora, praticamente usando o mesmo tipo de roupa: Uma saia longa de cor morta, bem desgastada, que não mostrava nada, apenas os pés finos e dedos pequenos. Vestia sempre uma camiseta longa que só acabava nos punhos, com grandes botões pretos, tão grandes que escondiam seus seios. Parece que ela se protegia dos pés a cabeça, evitando olhares de desejo dos homens de plantão. Não era bonita, mas também não era de se jogar fora, deixava o cabelo solto, longo e embaraçado. Tinha grandes lábios, e uma pele morena e lisa, mal arrumada, não despertava tanto o interesse daqueles que havia, sempre passava despercebida, acho que pra ela assim era melhor. Seu único amor era os cultos, de segunda a segunda, andando com aquela velha bíblia pesada de capa cinza, nem sei pra que tanta oração, pois, ninguém imaginava que ela fosse capaz de pecar.

 Os moleques da rua a chamavam de "tia encalhada", pois, chegava aos 30 sem nunca ter namorado sério. Trabalhava de caixa em um supermercado no centro, ganhava pouco, mas, nunca atrasava o dízimo, para ela era sagrado o compromisso com o pastor. Morava apenas com sua mãe, seu pai já era falecido. Filha única, e bastante tímida, talvez a superproteção da mãe tenha impedido dela arrumar um namorado, e casar, ou talvez ela fosse tão tímida e desengonçada que nunca tenha conseguido despertar o deslumbre de alguém. Ela também não desejava abandonar a mãe, tinha um apego enorme  com a velha chata, que também assustava qualquer pretendente que por ventura se aproximasse.

Mas, essa rotina da santinha, nunca me convenceu, sempre chamou minha atenção, “culto de segunda a segunda?” achei estranha tanta devoção, no porão maquiavélica da minha mente, não descia essa história fria. Conversando com um e com outro descobrir que as terças a igreja que ela frequentava não funcionava, era a folga do pastor que também era cantor, vendia seus discos no fundo de um carro sempre no fim dos encontros religiosos, com os lucros reservados a "fins sociais"  (como a casa na praia que ele acabará de comprar).

Passava semana, passava mês, e minha curiosidade só aumentava como dívida de pobre. Para onde ela ia afinal? Será mesmo uma santinha? Eram tantas perguntas que não cabiam em um questionário de fofoqueira. Nunca fui de falar com ela, ficávamos apenas no, “boa noite e no bom dia”! Então, por um impulso corrupto resolvi persegui-la e acabar de vez com minhas dúvidas. Fui de mansinho rastreando os teus passos, ela andava rápido, e nunca olhava para trás, entrou na rua da igreja, passou pela porta e seguiu. Parecia que seu destino não tinha fim, entrando e saindo de ruas, sem cansar e sem parar ela seguia. Daí então ela parou, e entrou nunca casa de janelas grandes, num bairro classe média baixa. Olhei de longe sem saber o que realmente funcionava ali, não dava para perceber, tinha que correr o risco de ser pego e chegar mais perto, ou então continuar com as inquietações da minha curiosidade. Tomei coragem, atravessei a rua e parei na porta, a casa estava meio escura, procurei alguém por perto para saber quem morava ali. Porém ninguém sabia, acabei até sendo assaltado nessa tentativa de procurar informação, levaram meu relógio, que era herança do meu avó, e meu celular que ainda estava pagando. Pensei em entrar e acabar de vez com todo o suspense, já era um pouco tarde, sabia que ela já estava pra sair, sem pensar direito entrei sem bater, e meus olhos não acreditaram no que eu vi, meu queixo caiu, e caído ficou, era tão estranho ver aquilo, nunca iria imaginar o que ela realmente estava fazendo. Gritava alto, se tremia toda, até suada estava, revirava os olhos tão rapidamente, e gemia alternando tons. Foi inesquecível, matei minha curiosidade, descobrir que a danada da santinha, realmente era uma santa, pois, o que ela fazia naquela casa, era rezar com um grupo de irmãos, canalizando ainda mais a força de sua fé, contra os poderes do demônio. Não pensei duas vezes e me juntei com o grupo, gritei duas aleluias, chamei o povo de irmão, e assim conseguir disfarçar toda essa confusão.